Aforismos anestésicos...

... Nada mais nada menos que aquelas máximas que nunca ninguém leu mas todo interno/especialista ouviu da boca de um anestesista. Ou se amam ou se odeiam!!!







terça-feira, 9 de novembro de 2010

"That's all, folks!!!"

Pois é, a minha caminhada no mundo bloguista das máximas anestésicas chegou ao fim, não por vontade própria mas porque sinto que esgotei o tema!
No entanto, neste meu último post, não poderia deixar de agradecer a todos os que me apoiaram, família e amigos, e a todos os que tiveram paciência de ler os meus devaneios mentais.
Espero que me revisitem num próximo blogue meu, quando surgir novo tema nesta cabecinha pensante.

Abraços prós beijinhos

domingo, 7 de novembro de 2010

"O Ambu é valioso em caso de corte de energia"

Digamos que o autoinsuflador manual, vulgo Ambu, é valioso em qualquer situação que exija manipulação da via aérea.
De fácil manuseio e extremamente portátil, será um dos equipamentos mais utilizados em Anestesiologia.
Deverá ser usado, para além do exemplo descrito na máxima, em caso de avaria do ventilador, paragem cardio-respiratória, transportes de curta distância. Para ser usado torna-se imperativo a sua verificação prévia, nomeadamente, o concentrador de oxigénio, a válvula de pressão, a válvula de PEEP e o balão em si (devo confessar que passei por sítios onde as diversas partes do Ambu se encontravam por montar!). Útil, mas não mandatório, a sua conexão a uma bala de oxigénio.
Em caso de corte de energia existem outras atitudes a tomar para além de ter o Ambu à mão (até porque os ventiladores, que não os portáteis, têm uma bateria interna auxiliar que permite o funcionamento dos mesmos).
Devemos avisar de pronto os cirurgiões se se prevê um corte de energia prolongado (pode ser necessário protelar a cirurgia em curso, fazendo apenas o semelhante a um "damage control").
Há igualmente que considerar a conversão para um balanceamento anestésico total endovenoso e pedir atempadamente as seringas perfusoras correspondentes (não há energia, não há sevo!).
Devo dizer que esta situação já me aconteceu e só a sistematização me valeu...

"Não tentes convencer um doente para uma anestesia regional se ele não quiser"

Não nos podemos esquecer que a recusa do doente na realização de um acto anestésico (e cirúrgico!) representa a contraindicação absoluta máxima para a abordagem do mesmo, até porque legalmente torna-se indefensável.
Mas talvez a pergunta mais pertinente que se impõe perante esta máxima seja: Porquê convencer?
Haverá assim uma necessidade tão grande na persuasão da dissuasão da decisão do doente? Não existirão alternativas à anestesia regional? Claro está, a velhinha anestesia geral ou até, por exemplo, a anestesia local com sedação.
Penso que o primeiro passo a dar será o de tentar perceber a razão da recusa. Por vezes os doentes referem más experiências com anestesias regionais prévias (várias tentativas; vómitos; bloqueio incompleto com necessidade de conversão), não se querem aperceber de nada ou apenas impera a desinformação àcerca da técnica e complicações. Caber-nos-á a nós desmistificar o mito, após o qual poderá o doente tomar, em consciência, a decisão final.
Poderemos achar que o doente beneficiará e muito da anestesia regional face à agressividade cirúrgica e/ou patologia associada. Compete-nos informar o doente dos riscos associados a cada uma das técnicas, assim como das vantagens.
Mais uma vez, a decisão final será sempre do doente!

"Sabe onde se encontra o desfibrilhador no bloco e como funciona"

Máxima sagaz e acertiva. Sobretudo porque poucos são os anestesistas que se lembram de verificar o adequado funcionamento de um desfibrilhador, tal a raridade com que o usam.
Sabemos que é realizado diariamente pelo staff de enfermagem um teste ao desfibrilhador mas cujo o único propósito será a verificação das condições da bateria.
Cabe-nos a nós verificar o resto, de forma regular, por uma razão de princípio fundamental: na maioria dos hospitais onde passei os desfibrilhadores eram diferentes de piso para piso, de enfermaria para enfermaria, de forma que necessitamos de nos inteirar dos "botões" básicos (para quando a preocupação hospitalar na standardização...).
A começar mesmo pelo básico: onde ele se encontra, onde se liga, é mono ou bifásico, funciona se não ligado à corrente, como se regula a voltagem e se procede à descarga.
Não esquecer de ver se, ao ligá-lo, ele assume de imediato as pás (e não as derivações, como nalguns), pois só nesse modo conseguiremos desfibrilhar.
Já agora procurem saber da existência de pás adesivas pois podem ser necessárias nas paragens ou em ritmos peri-paragem, taquidisritmias (cardioversão) ou bradidisritmias (pacemaker externo), ambos igualmente assustadores.

"Mantem as perfusões do doente do lado onde estão conectadas"

Mais uma máxima que foca a necessidade de uma metodologia rigorosa de trabalho no que diz respeito à organização todo o o equipamento que rodeia o doente, evitando potenciais erros lesivos.
De fácil execução, significa apenas que as perfusões (e já agora, soros e respectivos sistemas) debitando em catéteres periféricos ou centrais esquerdos, por exemplo, devem ficar sempre do lado esquerdo do doente (e de fácil acesso).
Imaginem que têm perfusões no lado contralateral ao acesso venoso do doente; se houver necessidade de o reposicionarem torna-se evidente o mais que provável estiramento dos prolongamentos dessas perfusões e consequente arrancamento do acesso. No caso de haver várias perfusões no mesmo acesso... Uma fora, todas fora! Convem não esquecer que um doente com muitas perfusões não é um "bom" doente e estará até dependente das mesmas (exceptuando a anestesia total endovenosa).
Igualmente irritante é ter perfusões e soros aleatoriamente à esquerda e direita, entrelaçando-se e enleando-se. Se há pior desorganização... Queres dar um fármaco e vês-te a seguir fios para teres a certeza que a torneira de 3 vias corresponde ao soro em questão!
Um último problema que justifica referir é o arrastar de prolongamentos de perfusões pelo chão. Mais uma maneira de tropeçar neles e arrancar acessos, partir seringas perfusoras e, quem sabe, a própria cabeça. Chamem um anestesista!!!

"Não se vai ao bloco poupar tempo nem ao estrangeiro poupar dinheiro"

Frase humorística proferida pela distinta Sra. Dra. Maria Cristina da Câmara, a "Senhora Anestesia", aos seus pupilos do exército anestésico dos Hospitais Civis de Lisboa, quando estes se queixavam que, por um qualquer motivo aparente, já estariam há demasiado tempo na sala do bloco operatório.
Apesar de sabermos que por vezes ficamos mais tempo de que desejaríamos, nunca devemos sentir o que pensamos pois facilmente perdemos discernimento nas nossas decisões e atitudes.
É manifestamente impossível realizarmos um trabalho de qualidade quando estamos a idealizar o que faremos quando sairmos do hospital.
Quando assumimos a responsabilidade de prestar um serviço a um doente ao longo do perioperatório, será a tempo inteiro, com a única preocupação de realizar um bom trabalho a par do restante staff que o rodeia, garantindo assim a total satisfação do resultado pretendido.
Deixem-me apenas acrescentar que, se não contamos os tostões quando vamos viajar, também não o devemos fazer no bloco operatório, porquanto a optimização do estado clínico de um doente não deverá ser alvo de qualquer tipo de preçário tabelado.
Alguém terá dito um dia que a vida não tem preço... Nem é perda de tempo!

"Onde há cianose há vida"

...E coronárias apertadas!
Porque uma coisa é certa, a cianose pode ser um sinal de vida mas não é certamente um sinal de saúde, nem tão pouco dá vida a um anestesista!
É uma máxima que aprecio de sobremaneira pois foca um aspecto que me diz muito, a monitorização clínica, ainda para mais trabalhando na vertente pediátrica, onde a clínica sobressai em relação à instrumental.
De facto, é razoavelmente comum ver crianças cianosadas pois basta um período de menor oxigenação para surgir a cianose, de seguida a dessaturação e posteriormente a bradicardia (em situações de hipóxia mantida e mais prolongada).
A cianose é um sinal clínico que se nota de imediato, cuja baixa de saturação consequente surge no ecrã longos segundos depois, daí a minha insistência na reavaliação clínica periódica do doente anestesiado (cianose, tempo de preenchimento capilar, pulso radial, sudorese, pupilas, expansão torácica, entre outros).
Face a um doente cianosado, na minha perspectiva e estando perante um contexto de urgência/emergência, trata-se primeiro o "sintoma", melhorando a oxigenação, pensando só depois na causa.
Apenas um pequeno àparte passando pelo doente com cardiopatia congénita cianótica, em se apresenta com a sua cianose habitual. Neste caso torna-se imperativo perceber a fisiopatologia da doença assim como os agentes anestésicos e atitudes que possam agravar a cianose existente e de que forma se procede à sua reversão.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

"Nunca uses um ventilador ou equipamento anestésico que desconheças"

Sobretudo a altas horas da noite!
A verificação matinal, de preferência por checklist, do ventilador e equipamentos, é realizada diariamente pelo staff de enfermagem.
Não invalida o facto de que qualquer problema inerentes ao mesmo que ponha em perigo a segurança do doente seja igualmente a nós imputado.
Daí que advogo uma segunda e sumária verificação feita pelo anestesista no início de cada caso.
Devemos verificar os alarmes do ventilador (e monitor), válvula de pressão, montagem dos ramos inspiratório/expiratório (mudados sistematicamente na pediatria consoante as idades dos doentes), funcionamento do ventilador nos modos manual e mecânico (preferencialmente com o pulmão artificial do ventilador) e respectivas fugas, se presentes.
Não esquecer a verificação e montagem do aspirador e o adequado funcionamento do laringoscópio.
Na presença de material desconhecido devemos perder o tempo que fôr necessário até o conhecermos bem (até os monitores podem ser diferentes do que estamos habituados).
Será imperativo não iniciar um acto anestésico se tivermos dúvidas.
Na dúvida peçam ajuda!

Conselho: se surgir um problema inesperado, pega num circuito ventilatório externo (Mappleson) e ventila-o à mão até à resolução do problema ou à mudança do ventilador.

"Se tens uma hipóxia súbita olha primeiro para o teu tubo"

Ainda que a causa predominante para a hipóxia seja um problema no tubo dever-se-á olhar em primeiro lugar, como noutra qualquer situação, para o teu doente. Está cianosado? A leitura do teu oxímetro está correcta (sem falha de equipamento ou má perfusão periférica?).
Se assim for, avalia o teu doente de ponto de vista hemodinâmico e ausculta-o pois nunca nos poderemos esquecer da emergência que é o tratamento de um pneumotorax hipertensivo!
Estando esta clínica descartada verifica, agora sim, o teu tubo pois várias são as possibilidades que levam a hipóxia súbita, passando a enumerá-las:
- Tubo desconectado: geralmente o próprio ventilador alarma um volume inexistente e deixa de existir linha de capnografia. Reconecta-o!
- Deslocação do tubo para cima: semelhante ao acima referido com a diferença de que se ouvirá fluxo de ar a sair da cavidade oral. Reposiciona-o!
- Deslocação do tubo para baixo: ouvir-se-á à auscultação o murmúrio predominante do lado para onde se deslocou o tubo (geralmente para a direita pela anatomia brônquica) e existe um aumento na pressão das vias aéreas. Acontece sobretudo nos posicionamentos diversos do decubito dorsal, se houver necessidade de flexão cervical e na pediatria (comprimento curto da via aérea). Reposiciona-o!
-Bloqueado: geralmente por secreções (esperemos que não o seja por uma peça dentária que tenha migrado para onde não devia aquando da laringoscopia!). à auscultação ouvir-se-á roncos, diminuição do múrmurio e aumento da pressão de pico das vias aéreas. Aspira-a e reexpande os pulmões na tentativa de desfazer possíveis atelectasias!
-Dobrado: muito comum nas crianças pequenas pelo calibre e maleabilidade do tubo. Apresenta-se associado a um aumento da pressão de pico da via aérea e diminuição do volume corrente expirado. Desfaz o "kinking"!
-Cuff herniado: situação rara que pode surgir por um repuxamento inadvertido do tubo, extensão cervical ou em situações de intubação difícil com deficiente visualização da glote na intubção. Poderá não cursar com hipóxia mas termos certamente um doente taquicárdico e hipertenso, que não cede aos opióides, devido ao estímulo simpático agressivo e permanente. Sb laringoscopia, desinsufla o cuff e reposiciona o tubo!

domingo, 24 de outubro de 2010

"Codifica as torneiras de 3 vias"

Nada mais nada menos que um método de identificação de vias quando o número das mesmas excede a nossa capacidade de as reconhecer de pronto.
Há quem escreva num adesivo o calibre do acesso venoso periférico, identifique o lúmen do catéter central e a linha arterial e os fixe no sistema de soros.
Não é a minha técnica preferencial mas antes uma que nenhuma.
Existe igualmente uns identificadores de plástico coloridos que se encontram nos kits de catéter venoso central e que se adaptam nas torneiras de 3 vias: azul para venoso, vermelho para arterial, amarelo para artéria pulmonar (no caso do catéter de Swan-Ganz), verde para outros (por exemplo para uma perfusão via epidural).
A melhor forma de identificação de vias que conheci foi no Hospital de Santa Marta, em que simplesmente as vias centrais estão fixas à direita da cabeceira do doente, as periféricas à esquerda e a linha arterial encontra-se escondida debaixo da cabeceira do doente. Todas as vias estão igualmente identificadas com adesivo vermelho e azul, consoante estejamos perante um acesso arterial ou venoso, respectivamente.

Lá vou ter eu de me habituar a algo tão pouco macho como pôr corzinhas nas minhas torneiras!!!

sábado, 23 de outubro de 2010

"A succinilcolina pode ser confundida por outro fármaco numa seringa de 2cc"

Como por exemplo, a atropina!!! Infelizmente já me aconteceu dar atropina em vez de succinilcolina e é tão desagradável pensar nisso pois considerei-o um erro clamoroso que, apesar de pouco nefasto no meu caso (intubou-se sem relaxante e ficou a bater a 140 durante 30'!), poderia ter tido consequências mais graves se, por exemplo, estivéssemos na presença de uma estenose aórtica!!!
Penso que as drogas de emergência (as que manipulam a hemodinâmica do doente) deveriam estar sempre cobertas ("escondidas") ou num tabuleiro à parte.
Lembro-me igualmente de uma troca de etomidato por cefazolina (durma, durma e o doente... nada!!!) pois têm a mesma coloração e estão em seringas de 20cc.
As ampolas idênticas são outra forma de erro grave (adrenalina, atropina e neostigmina) e para o evitar devem estar arrumados longe uns dos outros, de preferência em gavetas diferentes.
Não esquecer igualmente o quão importante será prevenir a administração de um fármaco por uma via errónea, como a intra-arterial ou a epidural. Estes erros surgem sobretudo em situações de emergência em que qualquer torneira adaptada ao doente serve para dar fármacos.
Diria e concluiria que a rotulagem informatizada sob a forma de autocolante, descriminando o nome, volume e concentração, será a forma mais correcta de prevenção do erro.
Precisamos de uma cultura de menor displicência e maior responsabilidade no que concerna a preparação, rotulagem e administração de fármacos.

"Avaliação pré-operatória: Quem, Quando, Onde."

Esta máxima relembra a noção de suporte macro hospitalar que existe em torno de cada doente.
Na avaliação pré-operatória são muitas as responsabilidades que temos.
Desde logo a avaliação físico-cognitiva do doente, dissipação de dúvidas, ajuste terapêutico e medicação pré-anestésica. Nesta primeira fase estamos perante uma visão micro hospitalar onde o doente é o centro.
Passamos então à segunda fase, a macro, em que se avalia de forma centrípeta todas as circunstâncias inerentes à cirurgia que rodeiam o doente:
Quem faz a cirurgia? A importância encontra-se a vários níveis, nomeadamente na duração cirúrgica, na confiança depositada no cirurgião, na discussão do plano anestésico-cirúrgico.
Quando será a cirurgia? Dá-nos a noção da altura ideal para a medicação pré-anestésica, para o pedido de sangue na sala do bloco, para a preparação e acessibilidade de material específico para a manipulação anestésica do doente (ex: fibroscópio). Estaremos com disponibilidade mental para a cirurgia na altura que ela decorrerá (poderá ser necessário alterar o horário da cirurgia se, por exemplo, estiver em último tempo e implicar um elevado e mantido nivel de concentração).
Onde irá o doente no pós-operatório? Deveremos averiguar atempadamente a vaga disponível no local de destino final do doente operado assim como os seus recursos (existem Unidades que têm camas com ventilador e camas sem).
Enfim, um doente não é só um doente, é também um veículo motor de toda uma estrutura que trabalha a seu favor e dispor.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

"Não se esqueçam do velhinho nasofaríngeo"

Sendo que por vezes se torna difícil de permeabilizar a via aérea (facies largo ou sindromático) mas o doente não tolera o tubo de Guedel, devemo-nos lembrar de uma arma tão poderosa e tão tolerada como um nasofaríngeo.
Por vezes na recuperação anestésico com extubação profunda o Guedel torna-se eficaz na patência da via aérea e é necessário extensões cervicais extremas para ultrapassar a dificuldade (ou colocar o doente em decúbito lateral). Podemos nestes caso usar o nasofaríngeo mantendo o doente em posição neutra. E quando o doente acorda ele próprio o retira (sinal que já não precisa dele!)
Não nos devemos esquecer de outras indicações mais precisas: se o doente abre mal a boca ou se tiver dentes estragados , cujo o perigo de os partir com a colocação do Guedel poderá levar à aspiração dos mesmos.
Não esquecer igualmente as 2 contraindicações major: coagulopatia (epistáxis) e trauma facial (falsos trajectos).
Gostaria de referir que o seu uso na Anestesiologia pediátrica tem sido para mim de uma valor incalculável, sobretudo para a manutenção anestésica inalatória em doentes propostos para anestesia geral para ressonância magnética ou tonometria (induzo inalatoriamente com máscara facial, coloco o nasofaríngeo, adapto um conector apropriado de um tubo traqueal ao nasofaríngeo, que por sua vez se conecta ao ventilador, mantendo assim o doente profundo com os gases e libertando as minhas mãos.
Por vezes parece-me haver alguma dificuldade na escolha dos nasofaríngeos adequados acada doente. O mais simples será medir "a olho" da narina ao ângulo da mandíbula. O que faço de seguida é ir colocando o nasofaríngeo com o meu ouvido colocado na sua extremidade até sentir e ouvir passagem de ar. Fica perfeito!

"É perigoso usar os efeitos secundários dos fármacos com um propósito terapêutico"

E não é que dou por mim a fazê-lo?!
Não sei se o perigo é real mas não há dúvida que criamos potencial para a asneira! Porque um efeito secundário nunca vem só estes por vezes não os conhecemos!
Mas quem é que nunca aproveitou o efeito secundário vagolítico do pancurónio para o escolher como relaxante muscular de eleição ? Bom, pois é, quase ninguém (excepto os anestesistas da cardiaca pediátrica!), foi uma escolha infeliz.
Mas não me digam que nunca puseram um paracetamol endovenoso a correr a fio com o intuito de aproveitar o efeito hipotensivo deste analgésico? Pois é, acertei! No entanto outros efeitos secundários apontados são os distúrbios idiossincráticos (trombocitopenia) para além da sobejamente conhecida hepatotoxicidade (se bem que em altas doses).
Também é comum o bólus de propofol com o prósito de obter, não o efeito indutor mas sim hipotensor, descurando por vezes outros efeitos que poderão ser nefastos para o doente, tais como a diminuição do débito cardíaco ou pressão de perfusão cerebral.
Não nos podemos igualmente esquecer da lidocaína e do seu efeito de supressão da tosse face a um estímulo nóxico (efeito secundário de mecanismo desconhecido), tantas vezes usado, assim como não nos devemos esquecer do seu potencial arrítmico e de toxicidade em concentrações elevadas.
Por vezes aproveitamos de forma intencional o efeito secundário da petidina para debelar o shivering pós-operatório (mais uma vez de mecanismo desconhecido) e o seu metabolito, a norpetidina, aproveita o seu efeito pró convulsivante para nos pregar valentes partidas.
Em jeito de conclusão diria apenas que, ao aproveitarmos tudo o que de bom um fármaco tem, estaremos também a evocar o seu lado lunar e um balanço deverá ser realizado entre ambos.

"Just when I thought I was out, they pull me back in"

Frase célebre dita por Michael Corleone naquele grande filme que é o Padrinho e cuja tradução aproximada será "Logo quando eu pensava que iria sair, arrastam-me de novo para dentro", foi pro mim adaptada como máxima pois é um espelho literal do que se passa connosco no bloco operatório.
Quantas vezes nos dizem que o tempo cirúrgico é de uma hora, fazemos contas à vida com um sorriso nos lábios e de repente... já lá vão três horas!!!
Ou dizem-nos que são só mais dois pontos e ao fim de uma hora já se esgotou uma caixa de suturas!
Ou ainda... Estamos na recuperação do doente, a pensar na nossa ida ao refeitório e a enfermeira diz que falta uma compressa! Chamar o técnico de imagio, reabrir a ferida operatória, mais uma hora de intervenção e o refeitório fechado.
Inúmeras as situações que nos transportam ao mundo cinematográfico da máfia hospitalar!
Apenas haverá que encarar as horas seguintes com o mesmo espírito de intervenção anestésica do início do dia, sem um único laivo de desconcentração, que poderá ser fatal.
Just when I thought I was out...

domingo, 17 de outubro de 2010

"Periféricos para volume. Central para fármacos"

Curiosamente, uma máxima simples e, ameu ver, acertada, que só aprendi no meu 3º ano do internato, no Hospital de Santa Marta.
Muito simples de explicar vendo a Fórmula de Poiseuille que diz, basicamente, que o fluxo é inversamente proporcional ao comprimento do tubo e directamente proporcional à quarta potência do diâmetro do tubo. Assim se percebe que se o comprimento de um catéter for reduzido a metade (relação entre um periférico e um central!), o fluxo passará para o dobro; se o diâmetro interno fôr o dobro, o fluxo aumenta 16 vezes!!!
Quanto maior o calibre do catéter, mais volume/minuto poderemos administrar. No entanto, ainda há muito boa gente a preencher todos os lumens dos centrais com soros, para poder fazer mais volume!!!
qual o interesse? Nenhum. Quanto mais soros se colocam, maior a tendência em se perder a conta ao volume total horário que se está a fazer, caindo na hipervolémia e trabalhando para o edema agudo. Para além de que poderemos necessitar desses lúmens para perfusões (aminas, indutores, etc) ou reposições iónicas.

Excepção: se não se consegue cateterizar periféricos ou em crianças, em que os acessos periféricos, pela fragilidade capilar e má perfusão, deixam de debitar!
Neste caso será bom relembrar que na eventualidade de necessitarem de fazer volume pelo central podem recorrer à velhinha manga de pressão para espremer os soros (funciona lindamente com colóides). Tenham apenas o cuidado de verificar a temperatura dos fluidos que se administram pelo catéter venoso central pois a entrada de volume demasiado frio directamente no coração pode induzir disritmias malignas.

"Há uma relação inversa entre o número de tatuagens e a tolerância à anestesia regional"

Tatuagens e piercings são para mariquinhas! Abbocaths 14 nas mais recônditas partes do corpo é que é d'Homem!!! :)
Não sei se esta máxima é verdadeira , nunca reparei nesta insólita situação mas parece-me haver alguma lógica nela.
Em primeiro lugar a grande maioria dos tatuados são indivíduos do sexo masculina, entre os 20 e 30 anos e esses sim, facto comprovadíssimo com maior propensão à reacção vagal aquando da visualização ou do contacto com qualquer objecto pontiagudo e biselado.
Em segundo lugar pode-se partir do princípio que os doentes tatuados terão menor tolerância à dor, pela sensitização prévia das terminações nervosas motivada pelas tatuagens.
Basicamente a predisposição da pele ao estímulo nóxico de repetição provocado pela agulha da tatuagem, sem qualquer tipo de anestésico tópico, poderá levar a um desajuste/reajuste dos sinais químicos das vias da dor.
Aldrabice? Não sei, quase que me convenci... É que há tanta gente a fugir com o rabo à seringa!!!

"A segurança em primeiro lugar mas o conforto e bem-estar logo de seguida"

Esta é uma máxima que devemos ter sempre em mente, se possível não dissociando os vários aspectos da mesma, ou seja, um doente em segurança mas mantendo os maores índices de qualidade e satisfação intactos.

Nunca nos devemos esquecer que a segurança exige um método de trabalho, um ritual semelhante para todos os doentes. Já o conforto e o bem-estar advêm de uma boa comunicação e adequada informação aos doentes, boa analgesia do pós-operatorio, suporte estrutural hospitalar em conformidade com as árias fases da estadia à alta.

Na minha opinião pessoal existe uma altura em que a segurança se deve sobrepôr ao conforto. Quer na indução, quer na recuperação anestésicas, os doentes devem ter o tórax e abdómen descobertos por forma a mantermos uma adequada avaliação clínica, por oposição ao desconfortável arrefecimento que daí poderá advir. Mais vale um doente frio e vivo que quente e morto!

Já agora, por favor, destapem-me os doentes na totalidade na transferência da marquesa para a cama da enfermaria. São muitos soros, catéteres venosos centrais, sondas nasogástricas e algálias predispostas ao arrancamento!!!

"A práctica é o melhor dos mestres"

A nossa práctica e a experiência da práctica transmitida pelos outros colegas.
Quem nunca, como interno, andou a massacrar umas costas ou um pescoço a um doente até um sénior entrar em acção e conseguir à primeira o que falhámos à milionésima. E perguntas porquê, eles dão algumas dicas mas na realidade sabem que é muito ano a ganhar mão!
Não há dúvida que a práctica representa cerca de 80% do nosso dia a dia daí que, quanto mais casos tenhamos, mais técnicas façamos e menos erros cometamos, mais acertamos, mais acutilantes ficamos.
Se experienciamos uma complicação inadvertida, poderemos antecipá-la na próxima vez. Se não conseguimos executar uma técnica (intubação, raquianestesia), identificamos o que correu mal, as armadilhas, para no futuro as ultrapassar.
Gostava apenas de salientar que os restantes 20%, a teoria, nunca se poderá dissociar da práctica porquanto a taxa de sucesso diminui consideravelmente sem as bases para a executar, além de que cairemos numa rotina que poderá até já estar ultrapassada face às actualizações constantes que o mundo anestésico sofre.

sábado, 16 de outubro de 2010

" Os doentes não morrem das suas doenças; morrem das consequências fisiológicas das suas doenças"

Tão importante esta máxima, já que nós, anestesistas, tratamos só mesmo as consequências ou tentamos que as suas doenças não desenvolvam consequências nefastas ao longo de todo o perioperatório.
Posto isto, penso que, mais importante do que saber as patologias associadas, será o de saber o que elas fazem e/ou já fizeram ao teu doente, ou seja, carácter evolutivo, sintomatologia, repercussão na actividade física, hemodinâmica, impacto orgânico e previsibilidade de agravamento durante o acto anestésico-cirúrgico.
Após esta colheita detalhada, devemo-nos preparar para minimizar quaisquer consequências. Compete-nos escolher a melhor estratégia anestésica, incindindo no tipo de anestesia, fármacos anestésicos e outros que possam manter a estabilidade da doença.
Conselho: Uma adequada medicação pré-anestésica e uma boa analgesia de pós-operatório nunca fizeram mal a ninguém!